quinta-feira, 24 de maio de 2007

Receita para uma população dócil. PARTE 2: a Cultura.

Numa conferência realizada nos E.U.A., sobre o papel desempenhado pelo World Bank (Banco Mundial) no aumento da pobreza no mundo, o membro do Congresso Americano Spencer Bachus fez uma declaração interessante: constatando os níveis de educação no Afeganistão, afirmou que se o povo afegão não dava educação às crianças, os norte-americanos assim o fariam (referindo-se aos incentivos financeiros e à interferência direta de agências especializadas no local). É um comentário bastante interessante, sob dois aspectos: 1) demonstra a força do capital internacional na (in)gerência das políticas de um país periférico e 2) atesta o interesse em estabelecer critérios ocidentais aos povos dos países que se encontram à margem do capitalismo globalizado.

Aquilo fez-me lembrar de uma aula proferida pelo Professor Boaventura de Sousa Santos, relacionada a sua teoria da ecologia dos saberes.


A despeito de alargar demais o conceito de educação, temos que ter em conta que educação e cultura andam de braços dados. É bastante comum pernsarmos em termos de educação desvinculado da cultura, quando traçamos o objetivo daquela como inserida no desenvolvimento de técnicas úteis ao crescimento econômico. Mas, ao contrário, devemos ter a consciência de que uma das principais finalidades da educação é a transmissão da cultura adquirida, das tradições e formas de viver e conviver com a natureza e criar condições adequadas ao convívio social. Olhando esta questão sob este outro ângulo (da cultura), temos também de reconhecer que o modelo ocidental de educação dos últimos dois séculos vem multilando, aniquilando e apagando das memórias todos os tipos de conhecimentos (informação) que não são úteis aos sistemas de produção capitalista. E isto se dá por várias razões, muitas delas ligadas aos interesses da indústria.

Se pegarmos, por exemplo, o conhecimento dos povos relacionados à saúde, veremos que muito daquilo que hoje se poderia chamar de "curandeirismo" ou "feitiçaria" era, em outros tempos, conseqüência de uma maior simbiose entre o conhecimento humano e a natureza. É evidente que existem riscos na prática humana dissociada do saber científico, mas o que está em causa é a desconstrução de formas de saber que pertencem à cultura (de um determinado povo, por exemplo, o indígena) pela sublimação do senso comum através do conhecimento científico. Este último, muitas vezes, é uma apropriação empírica do senso comum com a finalidade de apropriação capitalista: marginalizando os conhecimentos e práticas milenares e, na ponta oposta ao desenvolvimento industrial ocidental, oprimindo e regulamentando negativamente (proibição) a praxis sedimentada na cultura desses povos.

De outro lado, podemos comentar que a interferência externa nos processos de aprendizagem e transmissão de cultura são formas de enculturação, nas quais valores exteriores são semeados e enchertados - mesmo que à força -, criando negações à cultura local. Aí está uma perversa relação de poder social, imposta, criadora de clivagens sociais entre o novo e o velho, o permitido e o proibido, a Ciência e a ignorância, o científico e o cultural. Esta desapropriação de valores é uma das formas de dominação dos países centrais do sistema mundo de produção capitalista em relação aos países econômicamente e militarmente mais fracos. E neste aspecto, a cultura exterior, poderosa no sentido econômico, consegue subverter a cultura local, por meio da propaganda e da repetição - porque dispõe de vastos recursos financeiros para o seu intuito hegemônico de incorporação. Os padrões culturais ocidentais encontram caminho aberto à repetição local porque são assumidos como valores vencedores, modernos e, por isso mesmo, sucessores daqueles comuns ao modo de vida dos povos "menos civilizados".

Classificar uma determinada cultura de obsoleta ou "não civilizada" e tentar aniquilar a sua repetição numa determinada comunidade é uma tentativa de apagar a História de um povo. Intervir nos processos de educação e cultura locais é estabelecer a cultura ocidental como standard, condenando à morte as formas tradicionais de transmissão do saber e engessando os saberes conquistados ao londo dos milênios da vida humana na terra.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Armas, flores e estilos

Os estudantes da Universidade de São Paulo preparam flores de papel para resistir contra a Polícia Militar do Estado. Aí está um fenômeno interessante no movimento estudantil brasileiro e que pode servir de modelo de resistência às "políticas de violência" naquele Estado. A atitude destes jovens, que desde o dia 3 de maio ocupam a reitoria de sua universidade, é louvável e clara manifestação cidadã, democrática e, portanto, legítima. Inclusive, não é de se estranhar que os professores da mesma instituição tenham entrado em greve (no melhor estilo budista, em que o mestre aprende com o aluno): é sinal que os seus pupilos não podem estar errados - há algo de podre no reino da USP (no melhor estilo shakespiriano).

Muita coisa mudou desde o fim da ditadura militar; não há mais intervenção do exército nem da polícia política (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna ou DOI-CODI para os "íntimos", no melhor estilo fascista). Também não há, ou pelo menos ficou desarticulado os protestos de jovens estudantes armados com bombas caseiras, coquetéis molotov e etc (no melhor estilo Che Guevara); os estudantes que manifestam contra o desmantelo das instituições públicas de ensino superior protestam de maneira pacífica (no melhor estilo Ghandi)... Alguns podem argumentar que a ocupação do prédio da reitoria da USP é, em si, um atitude ilegal. Mas a legalidade jamais deve prevalecer sobre a legitimidade: o jurídico deve ser sempre inferior ao político, o jurídico é sempre uma conseqüência do político. É de se perceber que os atuais movimentos e organizações populares tomam relevo e assumem práticas que, muitas vezes são atentatórias à ordem pública e ao ordenamento jurídico - isso é inquestionável. Mas a violência do Estado não deve ser utilizada contra manifestações pacíficas; ela serve de condão contra a criminalidade e o "braço da lei" jamais deve levantar-se contra o cidadão.


Neste turbilhão de eventos estão realidades plúrimas, motivos diversos e aspirações assimétricas; nas últimas décadas, o Estado brasileiro deveria ter feito uma larga reforma, nos campos social, cultural, econômico e educacional, convergindo para um modelo de participação inclusiva e de redistribuição de riquezas. Entretanto, assumindo uma postura neoliberal (no melhor estilho Thatcher ou Reagan), as elites econômico-financeiro-burocrático, industrial-latifundiárias brasileiras procederam ao maior desmonte já visto em todas as instituições estatais, com uma agenda definida pela lex mercatoria e de acordo com as diretrizes do Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional e companhia limitada (no melhor estilo Bretton Woods). Assim, os ajustes econômicos percorreram toda a política da Federação brasileira e uma das áreas estratégicas mais importantes ao desenvolvimento nacional foi a que mais sofreu: a Educação. Deve-se frisar, sempre que possível, o potencial escondido por trás da Educação como solução emancipatória, como ferramenta de desenvolvimento humano, como verdadeira arma contra a opressão das estratégias hegemônicas de dominação político-econômicas que atuam no background da globalização do sistema de produção capitalista neoliberal. Cuidar da formação acadêmica de jovens tanto pode alavancar a economia, quanto pode servir aos interesses de uma revolução de costumes e sistemas jurídico-políticos. Neste último fim reside o meio das elites brasileiras: a conscientização de seu povo.

Agora é esperar que a Secretaria de Segurança Pública garanta a segurança dos jovens que protestam pacificamente na reitoria da USP. Aqueles rapazes e moças são cidadãos em atividade cívica de protesto e estão protegidos pelas leis que afirmam ser o Brasil um país democrático.

domingo, 29 de abril de 2007

Receita para uma população dócil. PARTE 1: a Educação.

Nas últimas semanas, tenho dado uma maior atenção à semiótica e às estruturas de enculturação social. Da minha análise, que ainda é superficial, ressalta a (pré)conclusão de que existe uma certa coerência entre os autores que cuidam do assunto, quando afirmam que os processos de enculturação são bastante úteis à manutenção dos sistemas sociais e econômicos; os resultados da observação variam de acordo com o agrupamento humano observado, como é evidente.
No mundo ocidental existem várias formas de execução deste proceso de enculturação: religião, mídia, sistema produção, sistema de ensino e assim por diante. Se pegarmos a mídia e o entretenimento, podemos constatar que a constante propaganda de consumo (consumo de entretenimento, ou de cultura, ou de bens materiais, ou do que quer que seja) garante um nível de docilidade que torna possível a execução de estratégias de controle social muito eficientes. Neste aspecto, consumo, propaganda e democracia podem trabalhar em conjunto para manter o status quo e garantir a arregimentação de uma população em conformidade com os objetivos da minoria que controla os sistemas de informação/enculturação. Senão, vejamos:
  • Observando a democracia
Em tese e de acordo com a idéia principal que habita o conceito de democracia, um regime de governo democrático exige conscientização e participação política dos cidadãos nas tomadas de decisões públicas (lato sensu). É óbvio que existe uma diferença entre "ser cidadão" e "ter cidadania" (neste sentido: J. J. Gomes Canotilho, "Ter cidadania/Ser cidadão"), que podemos determinar pela observação do nível de comprometimento político de uma dada sociedade. O ordenamento jurídico é capaz de conferir (e criar, artificialmente) este poder de participação política, pela atribuição de cidadania de acordo com os critérios de soberania adotados na seara político-juridíca (soberania nacional, quando é conferida a um determinado grupo de pessoas, ou popular, quando é conferida a todos do povo). Politicamente, a cidadania é um sentimento de pertença e identidade, que pode se expressar tanto pela passividade, quanto pela atividade de participação nos processos de decisão pública (legislativa, executiva e judiciária). Na base desta estrutura, encontra-se a conscientização política, que também traduz a ideologia predominante que orienta o comportamento dos grupos e classes sociais.
  • A democracia contextualizada pela cultura
Porque não centrar a discussão na sociedade brasileira, de democracia recente (1986)? Para as elites industriais e rurais brasileiras, o "problema" da conscientização é resolvido pela existência de uma educação pública deficitária e uma educação privada cara (ofertada no mercado de serviços) - neste aspecto e em todo caso, as profissões mais procuradas são aquelas que se destinam à formação de técnicos, pois ajudam na reprodução do capital - para não falar da escolástica que predomina entre a população do Estado (laico?) brasileiro. Dentre os estudantes que escolhem as ciências sociais e humanas, qualitativamente, deve-se admitir uma má formação de pesquisadores, em razão do pequeno incentivo financeiro destinado à execução de pesquisa. Deste cenário, podem ser feitas algumas observações, tais como a constatação de que os cientistas sociais representam uma minoria social, aquartelando o conhecimento num pequeno setor da sociedade. Ainda, devemos também lastimar que os recursos governamentais que se destinam à Educação e pesquisa fiquem sempre presos na malha de corrupção e burocracia do Estado.

De outro lado, vale dizer que a participação política, se recebe sua sentença de morte processo educacional (ideologicamente capitalista e liberal), sofre o golpe fatal quando é substituída pela atividade de consumo de bens/serviços (neste sentido: Noam Chomsky, "Understanding power"; Michel Foucault, "Naissance de la biopolitique: cours au Collège de France"). O consumo é essencial ferramenta de manutenção do status quo, porque desvia nossa atenção para a relação consumidor-produtor (ao invés de cidadão-cidadão, por exemplo). Nesta relação de consumo, o dinheiro serve como intermediário simbólico nas relações intersubjetivas (neste sentido: Karl Marx, "Capital", livro I).

O carnaval (fenômeno de escala nacional) já é uma válvula de escape aos horrores da miséria e representa um meio legítimo de manifestação de insubordinação social (que se expressa no desmantelamento momentâneo da maioria de regras morais, dado pela euforia alcoólica). Destraídos dos problemas diários, embrigados ou apenas levados pela agitação, os foleões se esquecem do Estado (ao menos que seja necessária ou imposta a presença do Estado-polícia). O que o exame das alterações legislativas no panorama histórico da democracia brasilira revela é que a legislatura proposta e aprovada em períodos festivos é majoritariamente contrária aos interesses da maioria dos cidadãos.

Sem encerrar o assunto, coloco a seguinte afirmação (com certa tranquilidade): o Brasil vem (re)produzindo uma população politicamente dócil. Os mecanismos de manipulação da opinião pública nacional estão sob o julgo de grandes corporações (por exemplo, a empresa brasileira Globo S/A está entre os 10 maiores conglomerados de comunicação social do mundo). Ao contrário do que se possa pensar, a comunicação social brasileira é forte, bem estruturada e tem bem servido aos interesses políticos da ideologia dominante. Ainda, o jornalismo tem uma agenda bem definida e já criou uma demanda de consumo baseada no escândalo e no imediatismo. Inclusive, diga-se que o jornalismo sensacionalista que acompanha a montanha russa dos assuntos políticos brasileiros não fornece os mecanismos necessários à conscientização da massa e ajuda a formação de uma população sem memória.

A cidadania não se faz sentir nos locais aonde o poder de intervenção e controle sociais são mais fortes: contrariamente, a cidadania se reflete nas atitudes que devem ser tomadas no cotidiano, longe dos olhos do Estado. A cidadania está ligada à idéia de democracia, e é a extensão do Poder social; pertence ao povo. Culturalmente, nas regiões mais pobres e onde há uma propositada má-condução do ensino, e socialmente, aonde o poder é exercido por meio da brutalidade (coação), a cidadania adormece, entra em estado de coma e morre.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Redução da maioridade penal no Brasil

Causa certo embaraço e muita tristeza saber que foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça brasileira o projeto de alteração da maioridade penal no Brasil. Embaraço porque o legislador brasileiro está tentando resolver o problema da criminalidade criando mais criminosos. Tristeza porque conhecer o perfil penitenciário brasileiro é saber que lá não é lugar para jovens.


Estou cansado de ler estudos e pesquisas que indicam as origens da criminalidade. O sistema penitenciário não diminui o crime nem ajuda a socorrer a sociedade dos delitos: ele é a última instância a que devemos recorrer, para os casos insanáveis e verdadeiramente hediondos e irrecuperáveis. O Direito Penal tem clientes bem definidos: são as pessoas que praticam atos que são repudiados pela maioria da sociedade. Contudo, o Direito Penal num país pobre, injusto, desigual e autoritário como o Brasil é uma arma apontada aos excluídos e marginalizados.

É essa linha de pensamento que sustenta a existência de medidas ressocializantes. Os jovens devem ser protegidos e estar sujeitos à reabilitação. Condenar um jovem ao sistema penitenciário é condená-lo à especialização na verdadeira e infalível escola do crime - administrada pelo Estado.

sexta-feira, 30 de março de 2007

A informação e a condição humana

“If people really knew [the truth], the war would be stopped tomorrow. But of course they don’t know, and can’t know.” (David Lloyd George, acerca da Primeira Guerra Mundial).

Existe uma mudança no pragmatismo da Educação nas sociedades que vivem a pós-modernidade. Esta mudança ocorre graças ao novo sistema empregado na programação das personalidades individuais e é possível confrontá-la com sua antecessora - e é isto que se vai tentar fazer neste post.

Há 50 anos atrás, as pessoas eram programadas em escolas, basicamente por meio do modelo hierarquicamente organizado "professor-alunos", no qual a comunicação se dava, principalmente, por meio da experiência áudio-táctil e concreta, mediante um sistema de ensino planejado e centralizado; a verbalização e a linguagem escrita eram condicionantes do processo de aprendizado e, desta forma, o único caminho à perpetuação da História/modelo social.


Com o advento da mídia televisiva, surgem revolucionários métodos de aprendizagem (direta ou indireta) e o aprimoramento de técnicas de condicionamento comportamental orientado a objetivos - públicos ou privados -, que se mostrou eficaz no aprimoramento dos sistemas de controle social e econômicos - quer se esteja a falar de sistemas democráticos ou não.

De passagem, a pretexto de falar de sistemas de governo democráticos, diga-se que à democracia só importa o exercício da escolha política, ficando a informação hegemônica (ideologia) condicionada à escolha da maioria - o quê, por si só, converte-se numa ditadura da maioria.

O que pretendo comentar é: esta continuidade nos avanços dos meios de comunicação, por via da tecnologia, traz consigo novos tipos de opressão e controle sociais que, sendo subliminares ou explícitos, transformam a condição humana e abalam profundamente as estruturas psicossociais de uma sociedade.

Agora, neste momento, a mensagem aqui exposta ainda está vinculada à forma de comunicação que pertence a um período em vias de extinção/transformação: ela é puramente escrita (porque assim decidi quando a formulei). Mas a mídia, a comunicação de massa continua a exercer um papel importantíssimo na construção/desconstrução das realidades humanas: provoca mudanças nos meios de produção, nas estruturas familiares, na organização e hierarquia social, nas procuras por bens de valor econômico/simbólico, propagam informações de natureza política, jurídica, religiosa e/ou moral e assim por diante.

Acima, de forma abrupta, considerei irrelevante o universo de referência do leitor (quem quer que seja), sem preocupação se seu intelecto será capaz de analisar o meu objetivo quando continuo a descrever brevemente o advento da Internet como ferramenta de programação/condicionamento dos comportamentos sociais e coletivos humanos. Faço isso porque imagino que, com um pouco de paciência e perseverança, o incauto leitor poderá fazer uma pesquisa nos mecanismos de procura (Cadê, Sapo, Google, Yahoo e etc.) e, quase sem nenhum esforço, observar a íngreme escala do avanço tecnológico da Sociedade Informática: de 1992 (ano da Internet comercial) aos dias de hoje, um avanço repentino à escala global sugere que os indivíduos podem programar-se a si mesmos.

Num ambiente que parece caótico e cresce sem nenhum controle aparente, as informações fluem à medida dos cliques do "mouse" - termo que, por si, já dá espaço para metáforas as mais variadas. Entretanto, aquilo que não se disse nas linhas anteriores é que este "surf virtual" é, de longe, uma das ferramentas mais bem elaboradas de exame de conteúdos de informação e que, se bem utilizada, pode acarretar em ferramentas de controle mais que eficientes. Embora possa autoprogramar-se, o internauta deixa rastros (ver cookies) e fornece aos proprietários de websites estatísticas precisas sobre o conteúdo acessado, seja por região do país/globo, seja por conteúdo escolhido e, principalmente, quando o utente faz um cadastro e utiliza as ferramentas disponíveis no website.

A priori, o acesso à informação digital (autoprogramação) e as contra-informações que ela gera (cadastros e bancos de dados) não representam nenhum tipo de ameaça ao indivíduo - mesmo considerando a questão dos direitos da personalidade, como o direito à intimidade; tendo em vista tratar-se (a Internet) de uma caricatura da realidade, de uma virtualidade (a não ser que se vá legislar direitos da personalidade virtual, o que poderia sugerir que um dia se poderia legislar direitos da personalidade imaginária). Mas quando estas informações são trazidas à realidade, pode-se afirmar que os padrões comportamentais de ordem moral, psicológica e ética dos indivíduos poderão ser colocados ao sabor do julgamento público e aqui reside o grande perigo: o da invasão da privacidade real com base nas informações da personalidade digital da pessoa humana.

A par do que foi mencionado no parágrafo anterior - que não é o objetivo proposto -, deve-se dar uma maior atenção aos efeitos da tecnologia na vida social humana. Seriam os humanos projetados para se relacionar com as tecnologias que cria? Só pelo fato de poder transformar a natureza, para que ela se adeque às necessidades humanas, o homo sapiens sapiens (por saber que sabe) é uma espécie perigosa ao ecosistema - vez que o domina de forma racional, melhor dizer, de forma projetada, porque muitas vezes não é consciente dos efeitos de suas ações (analisando os resultados depois das conseqüências da intervenção). É senso comum e fato corrente a idéia de que as novas tecnologias são sempre empregadas nos mecanismos de controle e poder, não havendo a menor dúvida de que a Internet, já hoje, apresenta-se como perfeita arma de manipulação e dominação sociais antes vista, mudando as dinâmicas de aprendizado, relacionamento e enculturação que vigoravam até pouco tempo atrás.

Utilizemos um dos mecanismos de comunicação digital: o Skype. Por meio deste software (programa), duas pessoas podem se comunicar e se ver sem estarem no mesmo ambiente físico. É bem verdade que a comunicação entre pessoas em locais diversos já era possível através das missivas, do telégrafo, do telefone. Mas a virtualidade da presença é algo que apenas esta geração é pioneira. Isso afeta o próprio conceito de ausência, que pode se deslocar da idéia de falta real de alguém para noção de impossibilidade de comunicação imediata com uma pessoa. Além disso, diminui o esforço necessário à imaginação (ou seja, criação mental de imagens), porque traz ao contexto visual aquilo que se passa num local inacessível. Se este tipo de tecnologia estivesse acessível aos homens das cavernas, talvez eles nunca desenvolvessem a atividade de caça... porque estariam desacostumados à noção de distância ou espaços externos/exteriores - quem sabe? O que parece ter alguma coerência é a idéia de que não se conhece, ainda, quais são os efeitos destas formas de comunicação digital na humanidade.

Pode-se afirmar que a Internet e os novos meios de comunicação de massa fazem parte dos processos de integração/mundialização/globalização da intersubjetividade humana. É ainda razoável admitir que tudo isto só é possível porque existem claros interesses econômicos na exploração dessa linguagem informática (símbolos/dígitos). Mas, a partir de certas conjecturas, esse caminho torna-se enevoado e impreciso.

O único "voto válido" é supor que toda esta tecnologia traga maior liberdade de consciência às pessoas - ainda assim, seria preciso mais educadores, o que é um paradoxo à autoprogramação que este sistema fornece. Tudo isto é sinal da ambiguidade que permeia a condição humana: a criatura quase nunca se distancia muito do criador.

segunda-feira, 26 de março de 2007

A nova Ciência

“The Universe is a continuum; but our knowledge of it is departmentalized. Every learned Society is a pigeonhole, every University a columbarium." (Aldous Huxley).

Faz alguma confusão imaginar o pensamento humano diluído. Pensar no conhecimento em compartimentos é negar o fato de uma universalidade do mesmo e da inabilidade do ser à atividade de pensar.

O grande responsável pelo "encaixotamento" do pensamento ocidental foi Aristóteles; quando criou as disciplinas, tutelou e escravizou o pensamento humano, numa tentativa de dar-lhe uma maior coerência. Mas aí já vão centenas de séculos, e a humanidade hoje prescinde desta esquizofrenia intelectual. Quando se observa o entrelaçamento das ciências humana e de saúde, ou de saúde e tecnológica, ou qualquer outra forma de combinação dos saberes, percebe-se que, cada vez mais, todos os ramos do conhecimento humano estão interdependentes. Quando se faz uma afirmação desta monta, protestos surgem de todos os lados; protestos positivistas, compartimentalistas, enquadracionistas, absolutistas... "Síntese!" ou "Unidade!" ou "Autonomia!" são as "palavras de ordem" e progresso que se vazem ouvir por todos os corredores das instituições de ensino, quando, na realidade, o quê se deveria buscar era o tal universalismo do saber e uma nova forma de se construírem as relações de poder social. Como assim, poder social? Ora, não se guarda segredo da íntima relação existente entre Saber e Poder, sendo desnecessário traçar as origens greco-judaico-romanas desse vínculo - pois, se os gregos criaram os fundamentos da razão humana, os romanos trabalharam a política e o Direito, cabendo aos judeus separar estes campos do pertencente à religião. Com o advento ou contínuo aprimoramento do saber, chegou-se à Ciência e ao laicismo e é isto o que interessa discutir aqui - mesmo que brevemente.


Nas universidades, ao redor do mundo, não existe tanta necessidade de profundas descobertas, mais do quê saber como calcular, administrar e prever os impactos dos saberes sobre a vida na Terra. Soluções de ordem ético-jurídico-sociológicas devem andar pari passu aos progressos bio-tecnológicos e vice-versa, porque já não se pode esconder a irresponsabilidade técnico-científica (da Bomba de Hidrogênio à separação entre Direito e Moral) que percorreu a maioria das intervenções humanas. O que se pede aos pesquisadores e acadêmicos é menos preocupação com o Poder (que se expressa através da obtenção do título acadêmico) e mais comprometimento com as conseqüências de seus trabalhos - e já, aqui, lamenta-se a crescente falta de honestidade intelectual e a prostituição dos saberes.

Emancipação do pensamento humano, já! Antes que seja tarde demais.

África: os problemas de sempre

Muito se questiona acerca dos problemas em África e possíveis soluções. Compreender aquele continente é tentar auscultar a História e tentar perceber a humanidade e a espécie humana. Saber que as populações que ali vivem têm um passado não-ocidental e, da mesma forma, não sujeito ao modelo de modernidade Europeu/Ocidental já é um grande passo para descortinar uma realidade muito além da compreensão da maioria dos não-africanos.

Levando-se em consideração as formações humanas daquela região do globo, pode-se imaginar um universo complexo de relações intersubjetivas; ali, existem divergências culturais, políticas, religiosas, tradicionais e jurídicas que destoam, em muito, dos modelos que lhe são impostos como soluções aos "problemas" que ali existem. Há, ainda, a diferença endógena das populações das grandes cidades africanas "ocidentalizadas" do litoral e os outros tipos de formação social que o Continente alberga. Existe, também, grande dificuldade de proteção ao direito fundamental de acesso à terra, devido à mobilidade geográfica dos povos que habitam aquele espaço físico, tendo-se em consideração que o nomadismo é uma prática rotineira em milhares de agrupamentos humanos e fica difícil de se prestar ajuda humanitária àqueles que passam fome. Hoje, com o avanço do capitalismo excludente em território africano, há cada vez menos espaço para essas populações nômades viverem do seu extrativismo (a questão da grande propriedade agro-industrial). Para além disso, as fronteiras estatais artificialmente criadas durante o longo imperialismo colonial europeu ora separaram, ora uniram tribos e etnias rivais que ainda hoje disputam territórios e poder sobre outros grupos humanos.


O quê alguma leitura é capaz de levantar, é que algumas das maiores dificuldades vividas pelos povos africanos foram artificialmente criadas pelo desejo de dominação europeu, podendo-se afirmar que os povos africanos, com o passar dos séculos, nunca precisaram da ajuda externa para resolver questões de rivalidade inter-tribos ou intra-tribos; tinham, desde sempre, soluções jurídicas e normas sociais da mais variada espécie, chegando a resolver a maioria dos conflitos sociais pela via informal, transcendental, sobrenatural, sem a influência daquilo que na Europa se convencionou chamar de Estado; este, criado para satisfazer o animus domini europeu, foi a peça fundamental para a administração das colônias, subvertendo as tradições locais e criando um poder artificial incompatível com a realidade e incapaz de se manter senão através da violência extrema. E as "soluções" eurocêntricas que vêm a caminho continuam díspares e em descompasso com os interesses dos humanos que ali vivem. É evidente que existem sérios desrespeitos aos direitos humanos dos povos africanos, mas tentar solucioná-los em nome dos titulares destes direitos continua a ser a pior das medidas, porque toda forma de intervenção naqueles prados significa uma nova forma de violência ilegítima e paliativa. Por exemplo, tentar implantar a democracia como regime de governo é ser incauto, para dizer o mínimo. A democracia e o governo estatal são incongruências frente aos poderes tribal, tradicional e religioso que ali exercem grande influência sobre a vida de milhões de pessoas. Mais, fórmulas jurídicas positivadas e formas de resolução de conflitos estatais são insuficientemente fracas perante as relações multiplexas que envolvem essas pessoas e são ineficazes diante das normas e soluções consuetudinárias aplicadas e reconhecidas como válidas há séculos. Ações que devem ser tomadas dizem mais respeito à diminuição dos lucros que o capitalismo financeiro especulativo internacional tiram da região: proibição de venda, fiscalização, controle e banimento de armas de fogo e munições pessoal e de destruição em massa; maior rigor com o tráfico de drogas, pedras preciosas e outras riquezas naturais africanas; desmantelamento do tráfico internacional de órgãos humanos, investigando, julgando e condenando os responsáveis por esta atividade abominável (europeus, norte-americanos, em sua maioria); e tantas outras.

A comunidade internacional deve perceber, primeiro de tudo, que os povos africanos foram vítimas históricas da globalização européia, desde os "descobrimentos" portugueses, para depois reconhecer que os danos causados pelas ações já postas em prática para "salvar a África" - salvá-la da guerra, da fome, dos regimes ditatoriais e etc. - só podem ser superados por uma mais flexível não-intervenção, porque em pleno século XXI é inadmissível imaginar que eles são incapazes (jurídico/antropológico) de resolver as suas próprias mazelas. Enquanto houver uma mão européia a tentar guiar a África, ela sempre viverá os seus problemas de sempre.